Terça-feira, Fevereiro 07, 2006
Um poemeu!!!
quantas noites cá eu fico
recolhido, só, num canto
após a jornada triste
de uma vida sem lirismos
eu e as panelas vazias!
a mente plena de versos
o ventre a marulhar horrores
faminto de mil carícias
esfomeado de amores
eu, recolhido a um canto
eu e as panelas vazias!
postado por: Heringer 12:46 PM
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Sábado, Setembro 17, 2005
É vindo...
De ermos ocultos
Siderais
É vindo um bólide
E seu destino se finda
Sobre as nossas tristes vidas
Da explosão formidável
Que advirá
Restará muito pouco
Ou mesmo nada!
Badalem os sinos
Soem sirenes
Gritem alto os passantes
Chamem pra rua os meninos
Rompam algemas
Soltem os presos às pressas
Serrem as grades
Libertem as aves opressas
Quebrem as trancas
Queimem as leis
Tragam os párias e os pobres
Dêem trajes festivos às moças
Deixem dançar os idosos
Sirvam-se os vinhos preciosos
Toquem guitarras e flautas
Encham-se as casas de flores
Cantem as mais lindas árias
Façam-se amores nas praças
Haja poesia nos ares
E prazer pelos lagares
Abram-se os clubes de elite
Andem nos carros de luxo
Franqueiem-se os ricos palácios
E enfeitem-se de jóias e ouro
Joguem nos finos cassinos
Compartilhem os tesouros
Saciem-se em lautos banquetes
E acabem-se em carnavais
E morram de amor e paz...
Retenham nos braços
O paraíso fugidio
Abracem bem perto do peito
A alegria fugaz
E nas faces mantenham
Um sorriso bonito
Que do infinito
É vindo
O fim
E depois
Só o silêncio
E nada mais...
.
postado por: Heringer 3:26 PM
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Sábado, Outubro 23, 2004
Munidos de estilingues e bolotas de barro, lá iam eles em sua cruzada insana contra os marimbondos. Sorte destes que a pontaria daqueles era uma lástima. Mas uma ou outra podia calhar de atingir o alvo - a casa dos pobres bichinhos -, e tome correria - estranha essa atração pelo perigo! Em um dos meninos, o marimbondo conseguiu ferroar o lóbulo da orelha que tanto inchou que mais parecia um brinco - e houve choro e ranger de dentes. A mãe aflita, que nada entendia de venenos e destes bichos, entre praguejamentos e cuidados, alternou gelo e água quente sobre a orelha atingida. Nada adiantou. Mas o tempo curou o menino, que em poucos dias estava pronto outra vez para novas e excitantes aventuras. O tempo também é traiçoeiro, e hoje, homem feito, o menino veio a tornar-se extremamente alérgico à picada de insetos. Agora, quando isso acontece, o médico receita logo as terríveis injeções de benzetacil - eficazes, porém bastante dolorosas. E pra ele nunca ficou muito clara a questão do que é mais venenoso, se praga de mãe ou picada de marimbondo.
postado por: Heringer 1:44 PM
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Ainda que fôssemos de bicicleta a distância parecia uma maratona. Mas a aventura compensava e havia, pelo menos pra nós, a esperança de enriquecimento fácil. Não sei qual dos meninos descobrira o veio, só sei que dali saía, com um simples revirar do solo cascalhoso, cristais belíssimos, muito negros, lapidados, jóias raras, pelo menos é o que pensávamos. Levamos o material para o nosso professor de química, pois o julgávamos o mais apto para avaliar o nosso butim. Foi um tanto desanimador o seu veredicto: as pedras, simples cristais de rochas, ainda que belas e perfeitamente trabalhadas pela natureza, não tinham valor comercial. E o nosso professor, agora eu sei, perdeu ali uma grande chance de nos ensinar a preciosa lição: sem trabalho não há riqueza. Diamantes dificilmente irão aflorar do solo. Tudo o que é compensador exige um esforço proporcional - dentro da legalidade, naturalmente. Ainda não sabíamos disso, dado que éramos muito jovens, mas a vida iria ensinar-nos ainda bem mais. Na verdade, o fascínio por riquezas fáceis e acessíveis estava em todos os lugares, principalmente na literatura, que era pródiga em tesouros de piratas e seus enigmáticos mapas, falava de eldorados que deviam jazer sob as selvas peruanas e amazônicas, descrevia minas de ouro e rios férteis em pedras raras e fabulosas. O resto ficava por conta da nossa - não menos fantástica - imaginação. Hoje, oficializadas, as lendas sobrevivem em jogos de azar tais como as loterias, mega-senas, lotos, bingos, jogo do bicho, sorteios, etc. Milhares crêem nelas, por isso lhes chamam fezinhas. As casas de jogos pululam e proliferam. A esperança - a última que morre - não passa de um simples jogo!
postado por: Heringer 1:43 PM
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Eu gostava de passar as tardes com a minha tia. Sua casa era simples e acolhedora, e ela, comigo, simpática e agradável. Servia-me doces, bolos e refrigerantes. Fazia com que eu me sentisse muito importante, como se fora gente grande. Porém, algo abalava a paz do lugar, a vizinha. Talvez, por ser eu ainda muito novo, não me incomodasse tanto a cantoria da moça, mas a minha tia ficava uma fera. A menina, que era negra, morava na casa ao lado e somente um muro, relativamente baixo, separava as duas moradias. E como cantava! Não tinha a voz feia, cantava até bem a danadinha, embora às vezes exagerasse no volume. Minha tia dizia que já não agüentava mais; que aquilo era assim noite e dia; que não dava mais pra suportar; que alguém tinha que tomar alguma providência senão ia enlouquecer... Deu-se, que ela pensou numa solução e tanto se virou que conseguiu uma arara - linda, verde e amarela -, e esta gritava ainda mais que a moça. Eu me divertia em meio à balbúrdia. A tia parecia contente por infligir à outra os gritos estridentes da sua exótica e esganiçada ave. O tempo passou, eu cresci e caí no mundo. Depois de muitos anos volto por lá e revejo esse pessoal - tia, casa, vizinha, o quintal, ainda estão lá, do mesmo jeito, talvez mais velhos, sem dúvida, mas ainda assim tudo parece tão íntimo... a não ser os cantares. A vizinha está velhinha e já não canta; a arara morreu há tempos de uma doença respiratória. Só o vento parece fazer algum ruído por ali. Titia continua simpática e generosa e me empanturra de guloseimas. Sento-me numa velha cadeira de balanço voltada para o quintal que está muito verde, onde um abacateiro está prenhe de frutos, e me vêm à mente um monte de boas lembranças. A tia pergunta se desejo que ligue o aparelho de rádio que parece dormir sobre a grande mesa da varanda. Eu respondo que não, e então, como que por agradecimento, um sabiá, no galho do abacateiro, começa a cantar o seu lindo trinado.
postado por: Heringer 1:42 PM
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Sexta-feira, Outubro 22, 2004
Ele sozinho dava conta da lavanderia, afinal os clientes não eram muitos. E as máquinas é que faziam o trabalho mais pesado que era o de sacudir, bater e enxaguar as roupas sujas. Ele as passava, sim, e até que não passava mal. O problema eram as distrações, cada vez mais freqüentes e demoradas. Numa delas deixou que o ferro fumegasse sobre a perna de uma calça por mais tempo que o necessário, e, nela instalou-se uma mancha negra, um delta horrendo, irrecuperável! Lembro-me que a vítima, o dono da malfadada indumentária, veio por várias vezes procurar o seu produto, mas em vão. O lavadeiro inventava mil desculpas; até que o inevitável aconteceu: o cliente estourou e exigiu os seus direitos. Foi o estopim, o que faltava para a reação intemperada do outro - e há tempos planejada. Enxotou e empurrou escada abaixo o dono das calças, ameaçando-o e gritando impropérios. O infeliz não viu outra coisa a fazer senão fugir dali, assustado, e ruminando a honesta raiva, arcando com um razoável prejuízo.
Apesar disso, o lavadeiro viveu vida longa e criou inumeráveis filhos e filhas, e hoje - não sei onde está, se num céu ou nalgum inferno -, talvez ainda manuseie desajeitado, por lá, alguns ferros em brasa.
postado por: Heringer 1:23 PM
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Fidel Caiu. Aí fudeu...
postado por: Heringer 12:48 PM
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Quinta-feira, Outubro 14, 2004
Machucava-se todo porque o terreno era acidentado, irregular e pedregoso, justo lá onde ele ia sempre pra rolar de rir..
postado por: Heringer 10:17 PM
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Quarta-feira, Outubro 06, 2004
O pai leu pra ele num livro onde se dizia que as formigas eram inteligentes e laboriosas. - Labori... o quê?!!! - quis saber o menino. - Laboriosas, filho, trabalhadoras, e deitou falação sobre as muitas qualidades das formigas. O menino deu de observá-las. Afinal, estavam em todos os cantos da casa, até dentro da vasilha de açúcar. Viu que andavam em fila pelas paredes e não pode deixar de notar que insistiam em fazer curvas. Havia uma delas, mais sinuosa, que ele batizou de "curva do S do Sena", e notou também que, se eram trabalhadoras, inteligentes não podiam ser. Afinal por que não andavam em linha reta se este era o caminho mais curto e rápido? Perguntou pro pai, que não soube responder. Aí o menino se enfezou e passou a amassá-las com os dedos. Acabou levando uma baita repreensão da mãe, que ainda o obrigou a limpar toda a sujeira da parede riscada "... destes insetos nojentos e imprestáveis".
postado por: Heringer 1:22 AM
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A gente sabia que a Maria José gostava de cinema. Mas, coitada, era tão difícil pra ela! Na última vez ficara entalada na cadeira e foi preciso que todos saíssem, pra só então, com a ajuda do porteiro, conseguirmos tirá-la de lá. Agora ia passar "Os dez mandamentos", um filme muito elogiado, e queríamos levá-la. Com menos de nove anos de idade ela já pesava bem mais de cem quilos, estava enorme. Devia sofrer de alguma disfunção, mas ninguém naquela época sabia dessas coisas, e como comia muito, todos achavam que essa era a razão. Uma tia maldosa lhe dissera que na lei de Deus estava escrito - Não Comerás. A bobinha acreditou, e por isso nem queria ver o filme. Foi difícil convencê-la. Meu irmão teve que jurar que esse não era um mandamento. Tá bom, então se é assim, eu vou - ela acabou concordando.
postado por: Heringer 12:46 AM
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Terça-feira, Outubro 05, 2004
Ele morava no raio-que-o-parta, no quinto dos infernos, no cu do mundo, no lugar onde o judas perdeu as botas. Nada, quase nada chegava por lá, só notícia ruim. Os ônibus eram raros, a luz vinha piscando e bruxuleando como se fosse de vela, a água evaporava antes de gotejar nas torneiras. Uma tristeza. Só o nome do lugar era bonito e cheio de vaidades. E todos brilhavam os olhinhos e se interessavam quando ele dizia que morava em Ômegaville.
postado por: Heringer 12:15 PM
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Segunda-feira, Outubro 04, 2004
Chovia muito e parou ali pra abastecer o carro. Procurou por um banheiro, estava apertado. O lugar não parecia muito limpo, mas agradeceu aos céus por ter nascido homem - pra esvaziar a bexiga qualquer espelunca servia. Empurrou a porta que se abriu com um zunido, arranhando o chão imundo. Mal deu dois passos e foi atacado por um enorme cão que por pouco não o emasculou. Foi somente depois do processo judicial que seguiu-se ao incidente, que os donos do estabelecimento trocaram a velha placa onde antes se lia - Banheiro Masculino - por outra bem mais apropriada: Cão Bravo.
postado por: Heringer 7:43 PM
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O ônibus capenga se arrastava pela estrada esburacada e mal cuidada. Temia que não conseguisse chegar a tempo pra pegar um outro, na cidade mais próxima, e que o levaria ao seu destino. Olhou pro lado e notou uma senhora idosa que, de olhos fechados, rezava o terço. Riu-se, por imaginar que ela devia estar suplicando pelo sucesso da máquina velha e enferrujada. E assim pensava quando o veículo deu sinais de estertor, morrendo logo a seguir. Ao descer, junto aos demais, ouviu quando a senhora disse que havia males que vinham pro nosso bem, e que Deus escreve certo por linhas tortas. Sem outra alternativa fez sinal para o primeiro carro que passou... e esse já foi logo parando. Descobriu, para sua surpresa, que o viajante, que vinha de bem longe, tinha o mesmo destino que o seu. Agradeceu aos céus a divina providência e deu adeus ao grupo. Incrédulo notou, entre as mãos que lhe acenavam, uma que se destacava, da velha senhora, que lhe fazia um gesto obsceno.
postado por: Heringer 7:42 PM
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Sábado, Outubro 02, 2004
O moço perguntou-me se eu gostava de caçar e umas outras coisas. Com isso lembrei-me da primeira - e única - caçada que participei. Um amigo me convidara, dissera que eu iria gostar. Fui, por mera curiosidade. Nossas vítimas eram as pacas e ele se gabava de possuir os melhores cães paqueiros. Veio a noite e, no meio do bosque, a escuridão tomando conta de tudo, e mal escutávamos os latidos dos animais ao longe. Os latidos se intensificaram e ele avisou que os cachorros haviam encontrado uma paca e que em breve a trariam até nós. Duvidei. Os sons foram ficando cada vez mais audíveis e então avisou-se que engatilhasse a arma - a paca estava chegando. Ouvi ruídos nas folhagens e, como que um raio, um bicho enorme passou por entre as minhas pernas. Levei um enorme susto; tremi. O amigo girou nos calcanhares - ele estava bem ao meu lado - e passou com a sua espingarda por sobre a minha cabeça... e atirou. Isso a apenas três palmos dos meus ouvidos. Acertou o flanco esquerdo da paca, abatendo-a. E eu fiquei totalmente surdo, e num dos ouvidos se instalou um zumbido extremamente desconfortável. Agora o moço me faz esse monte de perguntas e eu lhe peço que fale mais alto e mais de perto, que o ouvido nunca deixou de zumbir e me incomodar.
postado por: Heringer 7:36 PM
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Ela reclamava muito dos latidos dos cães, estivessem perto ou longe. Acho que nunca se acostumou. Depois deu de mudar de apartamentos devido ao barulho do andar de cima. Irritava-se com o som dos passos, do arrastar de sapatos, das coisas que caiam, de quase tudo. Aconselhei morar numa cobertura. Aprovou a idéia. Agora vive reclamando dos raios e trovões.
postado por: Heringer 7:35 PM
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Eu sabia que ele jogava bem. Sabia que não seria fácil. Ele nos ganhava a cada jogo. E lá íamos nós, primeiro a gente passava na loja de seu Lili pra comprar as sonhadas e desejadas bolinhas de gude. Depois a gente se reunia na pracinha de terra e lá começavam as disputas. Ele era o máximo. Um verdadeiro craque em qualquer modalidade de jogo: meia-lua, papão, caçapa, garrafão. Acertava tudo e com tal precisão que não nos deixava a mínima chance... e nos limpava a todos. E sempre a gente voltava lá; o importante era o prazer que estes jogos nos proporcionavam. Mas o que eu não sabia era que ele, o menino craque nas bolas de gude, era cego de um olho. Sempre o fora. Na verdade, nem tinha o olho, no seu lugar havia um outro, que era de vidro.
postado por: Heringer 7:34 PM
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Quem não gosta de mangas! Às vezes, muito maduras, ficam vermelhas de tão doces e apetitosas que são. No quintal da nossa casa tinha uma mangueira frondosa e fértil. O problema é que ela ficava encostada no muro que dava pro telhado da casa do vizinho, que era mais baixa que a nossa. Acontecia de algumas mangas - quase sempre as mais graúdas ou verdes - caírem sobre as telhas de lá causando algumas avarias. Que importavam, se as mangas eram bem mais preciosas que tudo! O vizinho deu de nos vigiar; e não dava pra subirmos na mangueira com ele por lá a nos observar. Combinamos um plano. Como ele era vendedor de livros e trabalhava na própria casa, ligamos e encomendamos uma coleção bem cara - a Barsa -, e fornecemos como endereço o prédio em que funcionava um velho hotel, demos até o número de um dos apartamentos. Vimos quando saiu, e por certo iria demorar - o local ficava bem distante. E subimos rápidos no pé de manga que então estava carregadinho de frutos. Demos muito azar. O meu irmão desceu com galho e tudo sobre o telhado do homem e quase foi parar dentro de um dos quartos. Conseguimos retirá-lo de lá, e, por sorte, tão somente com uma costela quebrada. O homem ficou uma fera conosco, mas não conseguiu provar nada. Um galho caíra, fora um simples acidente... no entanto, ele serrou, criminosamente, todos os galhos da árvore que invadiam os seus limites. E nós ficamos com somente meio pé de manga.
postado por: Heringer 7:33 PM
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Sexta-feira, Outubro 01, 2004
CASA DE JOÃO DE BARRO
Quando menino, eu ingenuamente engaiolava as aves pensando assim demonstrar a grande afeição que nutria por elas. Não por todas! Mas, àquelas de cantos sonoros e agradáveis ou de belas e coloridas plumagens. Esta visão deturpada da afeição, se não reinterpretada a tempo, deve acompanhar muitos homens até a idade adulta, pois, não são poucos os que insistem em aprisionar os seus entes "amados". Hoje não faço isso; já não possuo gaiolas e prego discursos libertários quando me deparo com uma ave trancafiada.
Tive um casal de canários da Terra. A exuberância de seu amarelo ouro e o cantar trinado deixava-me encantado. Moravam em um viveiro; um espaço relativamente amplo de um metro quadrado. Coloquei lá, pra eles, uma casa de João-de-Barro que havia comprado de um menino da roça. Os canários gostam muito destas casas, que uma vez abandonada por seus construtores, são por eles utilizadas para suas posturas e procriação.
A princípio parece que gostaram; iam e vinham lá de dentro e carregavam os fiapos de corda e barbante, bem como as trinas de cavalo que eu lhes fornecia.
Não posso precisar exatamente quando começaram os tumultos e os desentendimentos do casal; mas pude perceber que havia um problema; e parecia ser coisa muito séria. O fato é que, o antes tão amoroso e prestativo canário, agora vivia às turras com sua parceira. A princípio não quis me meter, seguindo à risca a sabedoria popular que diz que "em briga de marido e mulher não se mete a colher". Sou desses que observa com atenção e respeito os ensinamentos do povo; mas a crise conjugal alcançou limites tais que já colocava em risco a integridade física da pobre consorte.
Enchi-me de bons propósitos e coragem; disposto a dar fim àquela união desastrosa. Antes, ainda curioso a respeito, retirei de lá a casa de barro com que lhes havia presenteado; por suspeitar que esta poderia estar sendo a causa da discórdia do casal. Eu já observara que as brigas se intensificavam quando ela, a canária, recusava-se a entrar na câmara de núpcias. Passou-me muitas coisas pela cabeça; mas não tenho a percepção que os canários têm; eu era muito jovem então, para sequer compreender a ira daquele orgulho ferido. Peguei da casa que fora do João e quebrei-a; queria ver se havia um ninho construído ou coisa parecida.
Todo o mistério desfez-se ante os meus olhos aturdidos. Percebi num momento todo o drama de um marido traído; dentro estava o ninho bem feito de cordinhas e pelos, e nele uma ninhada de camundongos recém-nascidos se espremia. Cinco ou seis pequeninos ratos ainda cegos e de pele rosada e transparente.
Encontrei, mais tarde, o orifício na tela de arame por onde entrava o casal de camundongos que se apossara da casa de João-de-Barro e o fechei cuidadosamente. Coloquei, desta feita, um caixotinho de madeira para servir como suíte do casal, que então, história explicada, desconfianças desfeitas, pareciam felizes e dispostos a recomeçar uma nova vida. E aprendi a estar atento a mais um dos sábios ditos populares e comumente empregado em questões similares: " Não era nada do que você estava pensando...!"
postado por: Heringer 1:59 PM
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UMA PESSOA BONDOSA
Que eu me lembre, ela sempre teve aquele estranho hábito - acompanhar enterros! Morávamos em uma pequena cidade de Minas e vez por outra alguém por lá batia as botas; e ela não faltava nunca: simpática e solidária com os membros da família enlutada. Nunca mais conheci outra pessoa assim. Para ela tudo estava bom e certo, e não havia motivos para discordar ou discutir. Secretamente e carinhosamente eu a chamava de Dona Concordina, este o nome de um personagem de um antigo programa de humor no rádio.
Ela era uma mulher saudável, de baixa estatura, meio gordinha e devia ter sido muito bonita quando jovem, pois conservava ainda a pele milagrosamente lisa e quase sem rugas; os cabelos já muitos brancos e bem penteados lhe davam um ar de beleza, meio que celestial. Eu gostava de conversar com ela e assim fiquei sabendo do seu intenso interesse pelas árvores. Plantara várias em sua rua - e me apontava esta e aquela , e mais aquela outra! sim, várias delas haviam sido cuidadas por suas mãos bondosas e pequenas. Tinha um apreço especial por um flamboyant e até mandou fazer um banco, e o colocou lá, junto ao tronco, no qual me assentei em várias ocasiões para escutá-la e desfrutar daquela sombra agradável nas tardes quentes e modorrentas.
Lembro-me, de certa vez, eu estar presente quando ela conversava com uma das filhas - eram cinco, e todas belas! e esta se queixava de estar se achando muito pálida e abatida, com o que a minha amiga concordou - " Sim, minha filha, você está mesmo muito abatida e pálida!". A filha assustada retrucou de pronto: - "Mas, mamãe, não estou também assim tão mal"; e ela, calma e serena finalizou com seu estilo único: - "Claro que não, minha filha, você está ótima, com a aparência excelente!". Não, não havia como! Ninguém podia tirar-lhe a paz e a tranqüilidade.
Então, inesperadamente, caiu enferma, vítima de uma trombose cerebral. Teve um dos lados do corpo paralisado e sofreu acamada por vários, longos e tristes meses; sendo atendida em todas as suas necessidades pelas filhas que se alternavam junto ao seu leito. Foi um dos quadros mais sofridos e deprimentes que já presenciei, e desde então tenho travado uma discussão muito séria com o Criador de todas as coisas, a respeito dela e de outros tantos padecimentos.
Ainda não chegamos, é verdade, a um acordo e talvez nunca venhamos a nos entender nesta questão. Por mais que Ele me diga que não tem culpa na história, que isso pode acontecer a qualquer um, e coisa e tal, eu não me convenço e continuo imputando-Lhe todas as responsabilidades do caso. Cheguei mesmo a perguntar-Lhe se ela, alguma vez, poderia ter-Lhe destratado, ou mesmo discordado de Suas famosas decisões. Disse-me, para o meu grande espanto e fazendo crescer, ainda mais, a intensa admiração que tenho por ela, que não, de fato, ela não havia Lhe desagradado em nenhum momento de sua pacata existência.
Hoje assento-me outra vez sob o flamboyant que ela tanto amava, e que agora está muito crescido; tem as raízes tão grossas, que mal se ocultam sob o solo irregular e fazem desenhos inusitados na superfície. E que está bastante florido nesta época do ano; e faz chover uma chuva miúda de pétalas vermelhas por todo o chão onde a sua copa amiga pode alcançar. Impossível não me emocionar e sinto tão forte a presença dela que chego mesmo a dirigir-lhe algumas palavras balbuciadas, em meio às lagrimas que teimam em vir: - "Bionda - assim eu a chamava! Eu acho que a vida é muito dura e cruel!" E juro que posso ouvi-la respondendo, e confirmando como sempre : - "Sim, meu filho, a vida é mesmo muito dura e cruel."
postado por: Heringer 1:48 PM
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